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domingo, 3 de junio de 2012

Pares Sócio-Normativos e Condutas Desviantes: Testagem de um Modelo Teórico em Diferentes Contextos Sócio-Educacionais Brasileiros


Pares Sócio-Normativos e Condutas Desviantes: Testagem de um Modelo Teórico em Diferentes Contextos Sócio-Educacionais Brasileiros

Social-Normative Pairs and Desviate Conducts: Testing of a Theoretical Model in Different Socio-Educational Contexts Brazilian

NILTON S. FORMIGA (1)

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Doutor em psicologia social pela universidade Federal da Paraíba; atualmente é professor no curso de psicologia da Faculdade Mauricio de Nassau JP. Endereço para correspondência: Rua Juiz Ovídio Gouveia, 349. Pedro Gondim. CEP.: 58031-030. João Pessoa - PB. E-mail: nsformiga@yahoo.com     

   
Recibido: 29 de Septiembre de 2010
Aprobado: 14 de Febrero de 2011

Referencia Recomendada: Formiga, N. S. (2011). Pares sócio-normativos e conductas desviantes: testagem de um modelo teórico em diferentes contextos sócio-educacionais brasileiros. Revista de Psicología GEPU, 2 (1), 79 - 93.    
Resumo: Inúmeras explicações sobre a manifestação das condutas desviantes em jovens, porém, ainda acredita que as instituições de controle tem sido destaque como fator de proteção para o desvio juvenil. O presente estudo tem como objetivo avaliar a influência das pessoas que compõem as instituições de controle como a família e a escola, aqui atribuídos como pares sócio-normativos – pais e professor - sobre as condutas desviantes em jovens de diferentes contextos sociais. Três amostras de jovens, homens e mulheres, da escola publica e particular de diferentes cidades responderam o questionário da afiliação com pares sócio-normativos e das condutas desviantes. No programa AMOS GRAFICS 7.0, gerou-se o teste do modelo hipotetizado; seus resultados indicaram a associação negativa dos pares sócio-normativos com as condutas desviantes, comprovando o poder da família – na figura do pai e da mãe - e da escola – na figura do professor – como fator de inibição das condutas permeadoras da delinqüência.

Palavras Chave: Modelagem Estrutural, Pares Sócio-Normativos, Condutas Anti-Sociais e Delitivas, Jovens.


Abstract: There are innumerable explanations about behavioral conducts manifestation among teens however it still believes that the control institutions have been highlight as a protection factor for youth diversion. The present study has as a main to evaluate people influence that comprise the institutions of control like family and school – here attributed like social-normative pairs – parents and teacher – about teens’ behavioral conducts from different social contexts. Three teens, men and women´s samples from a public school and a private one and in different cities have answered the affiliation questionnaire with social-normative pairs and behavioral conducts. Inside the program   AMOS GRAFICS 7.0, engendered the hypothetical model test and its result has indicated a negative association of the social-normative pairs with the behavioral conducts which confirm the family power like the father and the mother´s figure – and the school power – like the teacher´s figure – like an inhibition factor of the delinquency in between conducts. 

Palabras Claves: Structural Modeling, Social-Normative Pairs, Antisocial and Criminal Behavior, Youth.



Introdução

As explicações sobre os comportamentos desviantes entre os jovens contribuem para se refletir na permanência e renovação de intervenções psicossociais e de políticas publicas que possam inibir esse fenômeno tão grave na sociedade contemporânea entre os jovens (Stoff, Breiling & Maser, 1997). Apesar da existência de variáveis psicológicas e sociais apontarem soluções, ainda é importante compreender o poder das instituições – especialmente, a família e a escola – na ação inibidora dos comportamentos de risco.

Atualmente, as condutas de risco são bastante evidentes, estas podem se apresentar como conduta desviante, as quais se categorizariam em conduta anti-social refere-se a não conscientização das normas que devem ser respeitadas – desde a norma de limpeza das ruas ao respeito com os colegas no que se refere a certas brincadeiras – e não praticadas por alguns jovens. Neste sentido, este tido de conduta caracteriza-se pelo fato de incomodarem, mas sem causar necessariamente danos físicos a outras pessoas; elas dizem respeito apenas às travessuras dos jovens ou simplesmente à busca de romper com algumas leis sociais (Formiga & Gouveia, 2003).

Quanto à conduta delitiva concebem-na como merecedoras de punição jurídica, capazes de causar danos graves, morais e/ou físicos. Portanto, tais condutas podem ser consideradas mais severas que as anteriores, representando uma ameaça eminente à ordem social vigente. O que essas condutas têm em comum é que ambas interferem nos direitos e deveres das pessoas, ameaçando o seu bem-estar, bem como, diferenciando-as em função da gravidade das conseqüências oriundas (Formiga & Gouveia, 2003; Espinosa, 2000; Molina & Gómez, 1997). Possivelmente, todo jovem pratica ou já praticou algum tipo de conduta anti-social, o que faz parte do repertório deles, salientando como um desafio dos padrões tradicionais da sociedade, pondo em evidência as normas da geração dos seus pais.

Apesar do debate existente em relação à fissura social e psíquica quanto às instituições – por exemplo, família e escola - e o papel dos pais e professores como responsáveis pelo comportamento dos jovens; pais e professores ainda são vistos como referência ao apoio na promoção de comportamentos socialmente desejáveis das pessoas que a compõem estas instituições, seja em sua perspectiva estrutural ou funcional (Brenner & Fox, 1998; Bolsoni-Silva & Marturano, 2002; Formiga, 2005). Esse fato se deve porque nessas instituições todos (pais e professores) são co-participantes na construção psicossocial de atitudes, personalidade, motivação, valores, etc. dos jovens na sociedade contemporânea.

O foco nas instituições de controle sócio-normativo – isto é, a família e a escola – e sua dinâmica, refere-se à formação e socialização valorativa que o jovem e adulto incluso e ativo nestas instituições pode transmitir nas suas relações interpessoais uma condição psicossocial do valor das outras pessoas e suas condutas frente a elas, inibindo as condutas de risco (Formiga, 2005; Villar, Luengo, Gómez & Romero, 2003). Ao considerar o papel das instituições e sua dinâmica formadora, faz-se referência a afiliação, não a instituição como um todo, mas aos pares que compõem cada uma delas - respectivamente, pais – pai e/ou mãe - e professor; eles são considerados como os pares responsáveis e atuantes diretamente pelo estabelecimento e manutenção das condutas normativas dos jovens na sociedade, podendo ser considerados como influentes na inibição de motivação de atitudes de riscos, consecutivamente, do desvio social.

Com base nessas reflexões, no estudo correlacional de Formiga e Fachini (2003), Formiga (2005) e Formiga (2009) – estudos estes que são base crítica para o presente estudo – seus resultados apontaram, significativamente, para uma relação positiva entre a afiliação com os pais e professores, e destes, negativamente, com as condutas desviantes. Apesar da consistência nos resultados do estudo desses autores, é preciso destacar que no tipo de análise aplicada por tais autores, existe um inconveniente em que se pauta estritamente nos dados obtidos não considerando um modelo teórico fixo (no caso do presente estudo, teoricamente, hipotetisa-se que afiliação com os pares-sócio normativos entre os jovens explique negativamente a conduta desviante) que oriente a extração de indicadores estatísticos entre as variáveis independentes (afiliação sócio-normativo) e dependentes (conduta desviante) apresentando qualquer indicação sobre a bondade de ajuste do respectivo modelo teórico.

Um estudo nessa direção empírica, a qual tem sido comum na área das ciências humanas e social, especificamente, na Psicologia (MacCallum & Austin, 2000; Pitali & Laros, 2007); partindo dos pressupostos teóricos, busca-se contribuir, a partir da análise e modelagem de equação estrutural no programa AMOS 7.0, em direção de uma comprovação teórica da hipótese a que se pretende avaliar – a título de lembrança, o poder explicativo da afiliação sócio-normativo sobre as condutas desviantes - garantindo uma robustez explicativa entre as variáveis, bem como, apontar em direção da dinâmica multivariada entre elas.

Especificamente, a técnica da análise da Modelagem de Equação Estrutural (MEE) tem a clara vantagem de levar em conta a teoria para definir os itens pertencentes a cada fator, bem como, apresentar indicadores de bondade de ajuste que permitam decidir objetivamente sobre a validade de construto da medida analisada e sua direção associativa entre as inúmeras variáveis. Desta forma, dois resultados principais podem ser esperados ao trabalhar com essa análise: 1- estimativa da magnitude dos efeitos estabelecida entre variáveis, as quais estão condicionadas ao fato de o modelo especificado (isto é, o diagrama) estar correto, e 2 - testar se o modelo é consistente com os dados observados, a partir dos indicadores estatísticos, podendo dizer que resultado, modelo e dados são plausíveis, embora não se possa afirmar que este é correto (Farias & Santos, 2000). Atende-se assim, não a certeza total do modelo, mas, a sua probabilidade sistemática na relação entre as variáveis.

Um dos principais objetivos das técnicas multivariadas – neste caso, considera-se a modelagem de equação estrutural - é expandir a habilidade exploratória do pesquisador e a eficiência estatística e teórica no momento em que se quer provar a hipótese levantada no estudo. Apesar das técnicas estatísticas tradicionais compartilharem de limitações, nas quais, é possível examinar somente uma relação entre as variáveis, é de suma importância para o pesquisador o fato de ter relações simultâneas; afinal, em alguns modelos existem variáveis que são independentes em algumas relações e, dependentes em outras. A fim de suprir esta necessidade, a Modelagem de Equação Estrutural examina uma série de relações de dependência simultâneas, esse método é particularmente útil quando uma variável dependente se torna independente em relações subseqüentes de dependência (Silva, 2006; Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005; Hoe, 2008).

De acordo com Farias e Santos (2000), Hair, Anderson, Tatham e Black (2005) e Zamora e Lemus (2008) ao considerar a modelagem estrutural do modelo – isto é, a análise de caminhos (path analysis) - relaciona-se as medidas de cada variável conceitual como confiáveis, acreditando que não existe erro de medida (mensuração) ou de especificação (operacionalização) das variáveis; cada medida é vista como exata manifestação da variável teórica. Assim considerado, desenha-se o modelo teórico que se pretende tomando a partir elaboração hipotética entre as variáveis independente e dependente, isto é, entre as variáveis latentes e variáveis observáveis, por exemplo: no desenho desse modelo – elaboração da ligação entre as figuras caracterizando as variáveis estudadas - um retângulo é considerado como variável observada medida pelo pesquisador; uma elipse é considerada variável latente, isto é, construto hipotético não observado; uma seta com uma ponta indica o caminho ou a relação causal entre duas variáveis; uma seta com duas pontas representa a covariância, isto é, que estas variáveis se associam entre si; por fim, uma bolinha preenchida com um número e letra referem-se a um erro de medida. A partir do momento em que se elabora a hipótese, identifica cada uma dessas figuras associando as variáveis que se quer provar a múltipla influência.

Para que os resultados sejam obtidos faz-se necessário considerar índices de ajuste (escores co-variantes) – os quais destacados na metodologia do presente estudo, na sessão do procedimento – permitindo enfatizar a teoria a que se propõem e sua explicação, simultaneamente, entre as variáveis independentes e dependentes, além de garantir uma melhor avaliação associativa entre as variáveis a que se pretende corroborar no modelo. A grande importância no uso dos estudos de modelagem de equação estrutural refere-se tanto em relação à segurança dos resultados multivariados, quanto, partindo de um estudo anterior ou de uma perspectiva teórica - ou até, de ambas – a avaliado da associação simultânea entre as variáveis testadas (Hoe, 2008; Pitali & Laros, 2007). No presente estudo, partindo da perspectiva teórica apresentada, espera-se encontrar os seguintes resultados: a afiliação com os pares sócio-normativos associe-se, positivamente, as condutas desviantes – antisocial e delitiva.

Metodo

Amostra

Três amostras com jovens em idades de 15ae 20 anos, do sexo masculino e feminino, das cidades de João Pessoa - PB e Palmas – TO compuseram o estudo. Todas elas foram distribuídas igualmente nos níveis fundamental e médio da rede privada e pública de educação de cada cidade. Na primeira amostra 1 (N1) 489 sujeitos da cidade de João Pessoa – PB, entre 15 e 20 anos, predominando ligeiramente a participação das mulheres (52%) e com renda econômica superior a R$ 660,00; a segunda amostra 2 (N2) foi composta de 530 sujeitos da cidade de Palmas – TO, entre 16 a 21 anos, com uma distribuição eqüitativa em relação ao gênero e uma rende econômica de, aproximadamente, R$ 545,00; por fim, na terceira amostra 3 (N3) com 400 sujeitos, também com idades entre 15 a 20 anos e de ambos os sexos, dos quais 57% eram mulheres, e com uma renda econômica de R$ 722,00.

Tal amostra foi não probabilística, e sim intencional; pois além do propósito de garantir a validade interna dos instrumentos da pesquisa, era assegurada a possibilidade de realizar as análises estatísticas que permitissem estabelecer os critérios preditivos entre as variáveis estudadas.

Instrumentos

Os participantes responderam os seguintes questionários:

Questionário da identidade com pares sócio-normativos. Desenvolvido por Formiga (2005), nesse instrumento o sujeito era orientado a responder as questões referidas a sua identificação com os pares responsáveis pela socialização do comportamento socialmente aceito, considerando-os como pares sócio-normativos; isto é, eles deveriam assinalar, marcando com um círculo ou X numa escala de cinco pontos, tipo Likert, que variava de 0 = Não me Identifico totalmente a 5 = Identifico-me totalmente, o quanto o jovem se assemelhava a cada um dos pares sócio-normativos referidos no questionário (por exemplo, o quanto eles se identificavam com o pai, a mãe e o professor). Para isso, deveriam ter como foco a contribuição que cada um deles, de forma contínua, tem para sua formação social e afetiva em sua vida cotidiana.

Considerando uma análise fatorial confirmatória (AFC) e a análise do modelo de equação estrutural (SEM), o presente instrumento apresentou indicadores de ajustes recomendados na literatura vigente (Byrne, 1989; Hair, Tatham, Anderson & Black, 2005; van de Vijver & Leung, 1997): χ2/gl = 0,12; GFI = 0,99 e AGFI = 0,98; TLI = 0,98; CFI = 0,99; RMSEA (90%IC) = 0,02 (0,01-0,03), CAIC = 63,31 e ECVI = 0,04. O instrumento proposto apresentou garantia da confiabilidade fatorial e evidências empíricas para sua aplicação e mensuração no contexto paraibano.

Escala de Condutas Anti-sociais e Delitivas. Este instrumento, proposto por Seisdedos (1988) e validado por Formiga e Gouveia (2003) para o contexto brasileiro, compreende em uma medida comportamental em relação às Condutas Anti-Sociais e Delitivas. Tal medida é composta por quarenta elementos, distribuídos em dois fatores, como segue: condutas anti-sociais. Seus elementos não expressam delitos, mas comportamentos que desafiam a ordem social e infligem normas sociais (por exemplo, jogar lixo no chão mesmo quando há perto um cesto de lixo; tocar a campainha na casa de alguém e sair correndo); e condutas delitivas. Estas incorporam comportamentos delitivos que estão fora da lei, caracterizando uma infração ou uma conduta faltosa e prejudicial a alguém ou mesmo a sociedade como um todo (por exemplo, roubar objetos dos carros; conseguir dinheiro ameaçando pessoas mais fracas). Para cada elemento, os participantes deveriam indicar o quanto apresentava o comportamento assinalado no seu dia a dia. Para isso, utilizavam uma escala de resposta com dez pontos, tendo os seguintes extremos: 0 = Nunca e 9 = Sempre.

A presente escala revelou indicadores psicométricos consistentes identificando os fatores destacados acima; para a conduta anti-social foi encontrado um Alpha de Cronbach de 0,86 e a conduta delitiva ou delinqüente, 0,92. Considerando a Análise Fatorial Confirmatória, realizada com o Lisrel 8.0, comprovou-se essas dimensões previamente encontradas (²/gl = 1,35; AGFI = 0,89; PHI () = 0,79, p > 0,05) na análise dos principais componentes (Formiga, 2003; Formiga; Gouveia, 2003).

Caracterização Sócio-Demográfica

Os participantes responderam um conjunto de perguntas sobre característica pessoais (sexo, idade etc.) com a finalidade de caracterizar os respondentes da pesquisa.

Procedimento e análise dos dados

Para a aplicação do instrumento, o responsável pela coleta dos dados visitou a coordenação ou diretoria das instituições de ensino, falando diretamente com os diretores e/ou coordenadores para depois tentar a permissão junto aos professores responsáveis de cada disciplina, procurando obter sua autorização para ocupar uma aula e aplicar os questionários. Sendo autorizado, os estudantes foram contatados, expondo sumariamente os objetivos da pesquisa, solicitando sua participação voluntária. Para isso, foi-lhes dito que não havia resposta certa ou errada e que mesmo necessitando uma resposta individual, estes não deveriam se ver obrigados em responde-los podendo desistir a qual momento seja quanto tivesse o instrumento em suas mãos ou ao iniciar sua leitura, ou outro eventual condição. Em qualquer um desses eventos, não haveria problema de sua desistência.

A todos era assegurado o anonimato das suas respostas, enfatizando que elas seriam tratadas em seu conjunto estatisticamente; apesar do questionário ser auto-aplicável, contando com as instruções necessárias para que possam ser respondidos, os colaboradores estiveram presentes durante toda a aplicação para retirar eventuais dúvidas ou realizar esclarecimentos que se fizessem indispensáveis, não interferindo na lógica e compreensão das respostas dos respondentes. Um único aplicador, previamente treinado, esteve presente em sala de aula, apresentando os instrumentos, solucionando eventuais dúvidas e conferindo a qualidade geral das respostas emitidas pelos respondentes.

No que se refere à análise dos dados desta pesquisa, utilizou-se a versão 15.0 do pacote estatístico SPSS para Windows. Foram computadas estatísticas descritivas (tendência central e dispersão). Indicadores estatísticos para o Modelo de Equações Estruturais (SEM) foram considerados segundo uma bondade de ajuste subjetiva, dada pela divisão entre o qui-quadrado e o grau de liberdade (2/gl), que admite como adequados índices entre 2 e 3, aceitando-se até 5; Root Mean Square Residual – (RMR) - que indica o ajustamento do modelo teórico aos dados, na medida em que a diferença entre os dois se aproxima de zero. Para o modelo ser considerado bem ajustado, o valor deve ser menor que 0,05; índices de qualidade de ajuste, dados pelos Goodness-of-Fit Index (GFI) e o Adjusted Goodness-of-Fit Index (AGFI), que medem a variabilidade explicada pelo modelo, e com índices aceitáveis a partir de 0,80; Tucker-Lewis Index (TLI) e a Root-Mean-Square Error of Approximation (RMSEA), refere-se a erro médio aproximado da raiz quadrática, deve apresentar intervalo de confiança como ideal situado entre 0,05 e 0,08. (Byrne, 2001; Hair, Tatham; Anderson & Black, 2005; Joreskög & Sörbom, 1989; Hoe, 2008).

Resultados e Discussão

Buscando atender o objetivo principal desse estudo - testar o modelo teórico (causal) para explicar as condutas desviantes a partir da afiliação com os pares sócio-normativos em diferentes amostras - considerou-se um modelo recursivo de equações estruturais. Para tornar mais clara a leitura dos resultados optou-se por apresentar, em relação à conduta desviante – isto é, anti-social e delitiva - os pesos (saturações) que explicam o modelo proposto nas três amostras, expostos na figura 1.



Na figura acima é possível observar que, após as devidas modificações encontrou-se um modelo adequado, para as três amostras, com a seguinte razão dos indicadores psicométricos: Amostra 1 (N1) - 2/gl = 1,08, p < 0,30, RMR = 0,02 GFI = 0,99, AGFI = 0,99, NFI = 0,96, TLI = 0,99 e RMSEA = 0,01. Foi observado que os pesos da variável considerada pares sócio-normativos (afiliação com pai, mãe e professor) associou-se (λ = -0,19), negativamente, a conduta antisocial, a qual intermedia (λ = 0,60) a conduta delitiva; Amostra 2 (N2) - 2/gl = 1,47, p < 0,21, RMR = 0,02, GFI = 0,99, AGFI = 0,98, NFI = 0,98, TLI = 0,99 e RMSEA = 0,03, observando também, que os pesos da variável pares sócio-normativos apresentou uma associação negativa (λ = -0,21), a conduta antisocial intermediando (λ = 0,57) a conduta delitiva; por fim, a Amostra 3 (N3) apresentou um resultado na mesma direção com uma razão de 2/gl = 0,10, p < 0,93, RMR = 0,01, GFI = 1,00, AGFI = 0,99, NFI = 0,99, TLI = 0,99 e RMSEA = 0,01, tendo os pares sócio-normativos associado (λ = -0,19), negativamente, a conduta antisocial, que intermedia (λ = 0,62) a conduta delitiva.

De forma geral, este estudo não somente corrobora o estudo correlacional desenvolvido por Formiga (2005; 2009), mas também, apresenta uma maior segurança e robustez em relação à hipótese testada; reflete-se na importância da dinâmica interna da família e da escola frente à conduta juvenil, especificamente, quando se tem nessa dinâmica um fator de proteção para as condutas desviantes. Em todas as amostras, as condutas correspondentes ao comportamento delinqüente, os pares sócio-normativos apresentaram escores negativos associados a tais condutas. Isto é, na presença desses pares, provavelmente, menor será a manifestação de uma dessas condutas desviantes.

A dinâmica organizativa dos pais (pai e mãe; ou apenas um deles) como representação da instituição família tem o poder de inibir esse tipo de conduta, da mesma forma, a escola – na figura dos professores – também tem esse papel crucial na manutenção de um fator de proteção frente à conduta desviante; essa condição, de acordo com o que se propôs visando a prova do modelo teórico é de grande importância, com a participação de ambos (família e escola), no processo interventivo dessas condutas, com o objetivo de promover um continuum formador da conduta social desejável.

Isto vai além da construção de uma modularidade comportamental, apresenta uma direção psicossocial frente à responsabilidade e o vínculo afetivo entre esses pares; seja a partir do controle ou de um diálogo por parte da família, suposto constituinte de agentes da socialização nesta instituição, é possível que se estabeleça orientações quanto às regras sociais e o prejuízo afetivo ou interpessoal no rompimento da norma social transmitida por esta instituição (Bates, Bader & Mencken, 2003). Não somente a capacidade parental de diálogo e a menor distancia afetiva, mas também, o investimento no processo de monitoramento das condutas juvenis por parte das famílias seria importante na inibição de condutas que permeiam o risco social e fomentação do desvio.

Ao considerar o apoio da família e da escola frente à conduta juvenil delinqüente, os resultados apresentados neste estudo não somente pretendeu avaliar variáveis que contemplassem o cotidiano familiar e escolar – por exemplo, o vínculo de identidade com as instituições de orientação ou controle da conduta social - na busca de indicadores da manutenção de uma conduta adequada nas relações interpessoais. Teoricamente, comprovar um modelo teórico nessa direção, no qual avalia e mensure a participação efetiva e constante dos pais e professores na dinâmica social juvenil reflete-se em termos da validade e consistência da formação educativa, desenvolvimentista e personalística nas relações interna e externa dessas instituições.

Ao observa a figura 1, destaca-se o grau de vínculo dos jovens que pais e professores, capaz de inibir a conduta desviante. Com que estes resultados podem contribuir? O fato é que, prova-se, com o modelo, que esta condição não acontece de forma isolada, mas, é preciso considerar o conjunto cooperativo entre esses pares na intenção de manter e cumprir as normas administrada e estabelecida, mesmo que imperativamente, por pais e professores, consonantes ao compromisso convencional.

Neste sentido, o que na figura 1 pode ser refletido é a interdependência entre esses pares, frente à intervenção de condutas que nem sempre não são observadas, seja pelos pais ou professores, durante períodos em que um ou outro está distante do espaço vivido por esses jovens. Concretamente, na escola o professor poderá observar condutas tangenciadoras das normas sociais e junto à família, sobre a orientação e reflexão com a família, promover atitudes preconizadas por essas instituições quanto à formação moral e social.

Conclusao

Esse modelo pretendeu, em relação à explicação da conduta antisocial e delitiva, apresentar evidência empírica de que a afiliação com os pares sócio-normativos – pais e professor – é importante para a manutenção das normas e regras sociais, delimitando tanto espaços psicológicos quanto sociais, para que o compromisso e adesão a esses pares, esteja para  além de do respeito a um agente funcional da conduta social, mas, influencie a adesão a transmissão de valores e formação de traços de personalidade de sociabilidade e conscienciosidade.

Tais construtos – valores, personalidade, etc. - ocorrem na socialização entre esses pares, os quais, promotores de uma adolescência auto-consciente, humana e com tendência as condutas de apoio social a outros jovens, bem como, para uma formação de traços de personalidade que influencie, negativamente, uma conduta de risco (Formiga, 2005; Loehlin, 1997; Omar; Formiga; Delgado & Sampaio, 2004).

As condutas desviantes seria um reflexo da debilidade dos limites convencionais, principalmente, quando se trata do afastamento do vínculo afetivo, condição essa que pode ser entendido como a falta de comprometimento com os pares tradicionais e suas forças socializadoras para um comportamento socialmente aceito e a adesão débil aos papéis sociais convencionais direcionados por esses pares (professores, família, e especialmente, os pais) objetivando tanto uma melhor formação quanto fator de proteção social e psicológica (Formiga, 2005; Muñoz-Rivas & Graña, 2001; Grossi e cols., 2004).

Segundo Avellar (2007), o papel dos compromissos sociais do direito e costumes, interiorização das normas e valores somente será possível a partir do processo de socialização desenvolvido pelas diversas instituições sociais, tendo a família a instituição mais responsável por esse papel. Essa convencionalidade ocorreria apenas se estivessem envolvidos escola e família numa união que buscassem a promoção de melhores oportunidades de engajamento desses jovens em atividades socializadoras de esclarecimento e formação do valor das outras pessoas e seus impactos psicossociais. Fomentar entre pais, filhos e professores uma ligação afetiva e identitária, é investir no desenvolvimento de habilidades sociais a tríade professores-jovens-pais a fim de instituir um fator de proteção e de identificação contra o desvio comportamental de algum jovem quando manifestado seja em sala de aula, sejam, em sua própria casa, junto a família (Formiga, 2005).

Mas, vale destacar que nesse espaço discurssivo-empírico do estudo, nao se trata de controle excessivo e perda da expansão de conduta dos jovens, mas da promoção de poder acompanhá-los individual e interpessoal na sua dinâmica psicossocial. Aplicar de forma prática os resultados aqui achados é posivel que tenha um efeito positivo na orientação escolar, bem como, nas práticas parentais da família autoritativa e indulgente do que de permissividade e negligência (Formiga, 2005; Mulvey & Cauffman, 2001).

Embora neste estudo possa estabelecer sua corroboração em relação a outros estudos correlacionais desenvolvidos por Formiga (2005; 2009), porém aqui pode ser apresentada maior robustez e qualidade empírica, alguns limites devem ser destacados:
- Seria interessante a realização de um estudo com as mesmas variáveis comparando as resposta entre famílias estruturadas (aquelas famílias tradicionais) e reestruturadas (famílias com historia de separação ou divórcio entre os pais);
- Outro estudo poderia ser direcionado em termos da comparação das respostas dos jovens de instituições coercitivas com os da população geral em relação à valoração interna da família; por fim, seria útil um estudo intercultural e transcultural atendendo semelhante objetivo do presente estudo.

Contudo, é bom destacar que quando for considerar os resultados deste estudo é necessário ter em conta os aspectos mais específicos ou universais de cada cultura na avaliação dessas escalas quando se pretender adaptá-las para outros contextos. Por um lado é importante considerar as dimensões locais, específicas ou exclusivas (emics) da orientação de cada cultura, bem como, e não menos importante, avaliar as dimensões universais (etics) da Cultura, com o objetivo de compara os construtos estudados aqui para outro espaço geo-político e social (Muenjohn & Armstrong, 2007; Triandis e cols, 1993; Triandis, 1994; Van de Vijver & Leung, 1997).

Referencias

Avellar, A. P. (2007). Rompimento familiar e delinqüência juvenil: Quais as possíveis conexões? Revista eletrônica de ciências sociais, 1 (1),181-200.

Bates, K. A.; Bader, C. D. & Mencken, F. C. (2003). Family Structure, Power-Control Theory, and Deviance: Extending Power-control Theory to Include Alternate Family Forms. Western Criminology Review, 4 (3), 170-190.

Bolsoni-Silva, A. T. & Marturano, E. M. (2002). Práticas educativas e problemas de comportamento: Uma análise a luz das habilidades sociais. Estudos de psicologia, 7 (2), 227-235.

Brenner, V. & Fox, R. (1998). Parental discipline and behavior problems in young children. The journal of genetic psychology, 159 (2), 251-256.

Byrne, B. M. (1989). A primer of LISREL: Basic applications and programming for confirmatory

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Farias, S. A. & Santos, R. C. (2000). Modelagem de equações estruturais e satisfação do consumidor: Uma investigação teórica e prática. Revista de Administração Contemporânea, 4 (3), 107-132.

Formiga, N. S. & Fachini, A. C. (2003). Apoio social e condutas desviantes: Um estudo sobre a consistência explicativa dos grupos cotidianos no comportamento dos jovens. III Congresso Científico do Ceulp-Ulbra. Mercado e cidadania: O papel da Universidade. 21 a 22 de maio. Palmas-TO. [Resumos]. p. 186-188.

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Notas

1. Durante o desenvolvimento deste estudo o autor contou com a bolsa de produtividade do CNPq, instituição a qual agradece.

viernes, 1 de junio de 2012

ESCALA DE SENTIMENTO ANÔMICO: VERIFICAÇÃO DE SUA ESTRUTURAL FATORIAL EM BRASILEIROS



ESCALA DE SENTIMENTO ANÔMICO: VERIFICAÇÃO DE SUA ESTRUTURAL FATORIAL EM BRASILEIROS (1)SCALE OF ANOMIC SENTIMENT: TEST OF A STRUCTURAL FACTORIAL IN BRAZILIAN


Nilton S. Formiga & Marcos Aguiar de Souza

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Nilton S. Formiga es Doutor em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba; atualmente é professor no curso de Psicologia na Faculdade Mauricio de Nassau. Endereço para correspondência: Rua Juiz Ovídio Gouveia, 349. Pedro Gondim. CEP: 58031-030. João Pessoa - PB. E-mail: nsformiga@yahoo.com

Marcos Aguiar de Souza es Doutor em Psicologia. Docente do Departamento de Psicologia e do Mestrado Profissional em Gestão e Estratégica em Negócios, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. E-mail: maguiarsouza@uol.com.br   

Recibido: 04 de Agosto de 2011
Aprobado: 24 de Octubre de 2011


Referencia Recomendada: Formiga, N. S., & Aguiar, M. (2011). Escala de sentimento anômico: verificação de sua estrutural fatorial em brasileiros. Revista de Psicología GEPU, 2 (2), 80 - 97.

Resumo: No presente estudo pretende-se verificar a estrutural fatorial da escala de sentimento anômico em jovens brasileiros. Espera-se que prevaleça a estrutura unifatorial já encontrado em outros estudo no Brasil. 235 homens e mulheres com idade de 14 e 21 anos, da rede de educação publica e privada da cidade de João Pessoa-PB, responderam a escala de sentimento de estar à margem da sociedade e questões sócio-demográficas. A partir do programa AMOS GRAFICS 7.0, observaram-se indicadores que corroboram a existência de uma estrutura unifatorial, observado em estudo nacionais e internacionais.

Palavras Chave: Sentimento Anômico, Escala, Jovens.

 
Abstract: This study want verify the factorial structure of the scale of anomic feeling in young Brazilians. It is hoped that prevails the unifactorial structure have been found. 235 men and women, aged 14 to 21 years, of system education public and private in the city of Joao Pessoa, responded to the scale of sense of being on the fringes of society and social demographics. From the program AMOS 7.0 grafics, there were indicators that confirm the existence of a unifactorial structure, observed in national and international study.

Palabras Claves: Anomic Feeling, Scale, Young People.



Introdução
As discussões a respeito do desenvolvimento social, político e econômico da passagem de uma sociedade pré-moderna para a moderna, não somente pode ser destacada pela mudança na dinâmica urbana das cidades, mas, também, de uma mudança cultural que se perfila nos países ocidentais, ou seja, o aumento do individualismo ao invés do coletivismo (Formiga & Diniz, 2010; Magalhães, 1998).

De acordo com Reykowski (1994), a perspectiva individualista preza o bem estar do self como o principal critério de adaptação, enquanto a perspectiva coletivista procura preservar o bem estar do grupo. Todas as diferenças cognitivas, atitudinais e comportamentais entre coletivismo e individualismo se originam desta diferença fundamental em suposições implícitas sobre o mundo social.

Essa perspectiva individualista tem sido um fenômeno com grande força entre os jovens da sociedade vigente, o qual, típico de uma sociedade que tem seus valores fragilizados e as ações institucionais de controle do comportamento fracassadas quanto ao estabelecimento da norma social (Beato, Peixoto & Andrade, 2004; Feijó, 2001; Minayo e cols., 1999; Mulvey & Cauffman, 2001; Paixão, 1983).

O individualismo, assim, tem como pressuposto fundamental a racionalidade, sendo baseado nos princípios de regulações, regras e leis, de modo a favorecer a individuação, autonomia, auto-realização e a liberdade de escolha. Em contrapartida, o coletivismo tem como pressuposto fundamental o relacionamento, sendo baseado nos princípios de bem estar coletivo, papéis, deveres e obrigações, favorecendo a convivência em grupo.


É nesse sentido que Kumar (1997) argumenta que “o impulso para a individualização encorajou maior liberdade nas relações entre trabalhadores e empregadores, homens e mulheres, pais e filhos. As formas tradicionais de deferência cederam lugar a uma nova afirmação de direitos individuais, reforçadas, se necessário, por apelo às cortes de justiça” (Kumar,1997, p. 179).

Segundo Giddens (1998), essa condição foi vislumbrada por Emile Durkheim, o qual defendia a necessidade de que as pessoas fossem, também, um ser ‘individualista’, mas, que essa condição favorecesse a justiça social e o fortalecimento e consistência da autoridade moral na sociedade, não afastando as relações e formação social harmônica.


Porém, de acordo com Sorj e Martuccelli (2008), a perspectiva defendida por Dukheim no que se refere à necessidade de uma maior individualidade dos sujeitos, deveria implicar no aumento da autonomia e iniciativa individual, mas, não foi isso que ocorreu. Pelo contrário, as pessoas com uma ação individualista, não a realizavam com base na negociação das relações interpessoais e do respeito às normas e regras sociais, tornando, com isso, opaca a relação do mundo subjetivo do indivíduo e a sociedade. Isso gerou uma perda do reconhecimento e compreensão dos espaços da sociabilidade destinados a coesão social e não a um estado de desorganização.


O fato é que essa mudança cultural levou o sujeito à priorização de necessidades pessoais em que a meta seria a obtenção de prestígio. Assim, na falta de recursos ou mesmo de apoio social para alcançar tal prestígio, o indivíduo se utilizaria de condutas desviantes, o que revelaria não apenas o delinqüir juvenil, mas, uma desestruturação e descrédito do poder disciplinar das instituições normativas e formadoras da conduta juvenil e a dissolução do poder socializador dessas instituições quanto à transmissão moral e ética para os jovens, indicando assim, um tempo de anomia (Idhac, 2009; De Giorgi, 2005; Formiga, & Diniz, 2010; Lipovetsky, 1986).

Tal estado de anomia segue um caminho de caos social, no qual, quebrar a norma social pode ser um ato enobrecedor para a construção da imagem do sujeito e a busca das aspirações de consumo para a sua própria realização. Um desvio excessivo da norma transpõe os espaços da vida privada das pessoas, afetando os espaços públicos e coletivos e gerando um sentimento de insegurança e exclusão social (Idhac, 2009; Sigelmann, 1981).

Apesar de Durkheim (1893/1995; 1925/2002) considerar que a ação desviante poderia ser entendida como algo normal na dinâmica de qualquer sociedade, mesmo que em níveis suportáveis, essa ação deveria ser punida e inibida, porque é reprovada pela sociedade. Isto ocorreria tanto por causar prejuízo à ordem e harmonia da sociedade quanto pela indicação de que o sujeito não foi capaz de interiorizar as normas e os valores sociais exigidos pela sociedade. Para aqueles que buscam a harmonia e o bem estar social, uma condição delituosa faz surgir sentimentos e condutas de rejeição a essa situação. A intensidade e facilidade do delito revelam uma fragilidade na integração entre individuo, sociedade e as leis para a ordem social, originando a anomia.

O estudo sobre a anomia ganhou força conceitual e de análise dos problemas sociais com Emile Durkheim em seus livros a Divisão do Trabalho Social e o Suicídio. Para Durkheim (1894/2004; 1897/2000), a anomia refere-se a uma condição que a sociedade passa, na dinâmica de suas relações interpessoais, quanto ao reconhecimento da ausência de referência das normas e regras sociais que orientam e regulam o comportamento socialmente desejável do indivíduo e instituições. A existência da anomia na sociedade torna-se ineficaz o poder regulador, que as normas sociais e instituições de controle, têm sobre os comportamentos sociais, sendo incapaz da coesão da sociedade.


De acordo com Agnew (1997), Durkheim concebia que o estado anômico é uma condição peculiar da sociedade moderna e de desenvolvimento econômico dela, na qual os valores, a moral e a ética é determinado pelo enriquecimento material das pessoas, fazendo com que se entreguem as suas paixões e vivam apenas para si mesmo, inexistindo solidariedade e cooperação entre os membros da sociedade, conseqüentemente, uma consciência que priorize o coletivo social. Segundo McClosky (1976; 1978), a anomia conduz o indivíduo para uma sociedade carente no consenso do conteúdo das normas sociais fazendo com que as pessoas vivam sem aderir ou cumprir as regras sociais necessárias para uma boa interação indivíduo-sociedade. Mesmo que a concepção de Durkheim sobre a anomia tenha sido significativa para o estabelecimento do tema na Sociologia e Criminologia, outro estudioso de grande influência no estudo da anomia foi Robert Merton. Ele desenvolveu de forma sistemática a perspectiva teórica proposta por Durkheim, bem como, sua associação a conduta desviante (Caliman, 2006; Giddens, 2005; Huertas, 200; Reyes, 2008).

Diferente de Durkheim, o conceito de anomia elaborado por Merton (1938/2002) foi modificado, referindo-se a pressão que a sociedade impõe as pessoas para que se comportem, de forma desviante, quando as normas e a realidade social entram em conflito. Isto é, a fissura apontada por Durkheim entre a sociedade e as normas sociais, pode até ser reconhecido por Merton (1938/2002), mas, de acordo com esse autor, a anomia ocorre entre o subsistema dos fins e dos meios institucionalmente aceitos para que o desvio social se realize.

Merton (1938/2002), em seu livro Teoria social e Estrutura social, com base na concepção da anomia e com o objetivo de avançar no conceito e explicação do problema do desvio social na sociedade moderna, além de ampliar o conceito esclarece a função da anomia quando se tratar de explicar os conflitos e a ordem social.

Para Merton (1938/2002), a anomia é um problema estrutural e não conjuntural, além de se originar do poder imposto das normas sociais exigidas pela classe social favorecida, trata-se da impossibilidade de que o sujeito aceite e aja normativamente, pois, isso se deve as desigualdades sociais determinadas pela classe social mais alta para a realização dos objetivos dos mais desfavorecidos. O rompimento da estrutura cultural dá lugar a uma separação entre as normas e os objetivos estabelecidos pela cultura e as condições estruturadas socialmente das pessoas da sociedade e do grupo seguir de acordo com o que se exige. Em outras palavras, para Merton a anomia teria como origem a constatação por parte de indivíduos e grupos de uma incongruência na sociedade, fazendo com que os meios socialmente disponíveis sejam insuficientes para o alcance de metas socialmente valorizadas.

A partir dos estudos de Durkheim e Merton, diversas pesquisas foram desenvolvidas com o objetivo de operacionalizar, psicológica e sociologicamente, o conceito e a mensuração da anomia (Caliman, 2006; Rodriguéz, 2006). Desta forma, Srole (1956) estabeleceu, em termos psicológicos, um conceito e uma mensuração sobre a anomia. Este autor concebia a anomia como um estado mental, isto é, um sentimento de desespero e de abandono que acompanha o sujeito, devido à falta de acesso aos meios socialmente prescritos para a realização dos fins sociais.

De acordo com Rodriguéz (2006), apesar de serem encontrados outros autores que também atribuíam à anomia um estado mental em termos da falta de sentido e pertença na dinâmica indivíduo-sociedade - por exemplo, Deflem (1989) e Laswell (1952) - em termos pragmáticos quanto ao construto anomia, Srole merece destaque por ter desenvolvido um instrumento para mensuração do construto. Trata-se de uma escala do tipo likert, composta por cinco itens para mensurar o grau de anomia (tomando-a como um sentimento) das pessoas.

Com base na concepção de Srole, Travis (1993) elabora uma escala alternativa para avaliar a anomia em termos psicológicos, uma vez que considera a proposta de Srole muito abrangente em termos conceituais e, principalmente, quando se pretende mensurar a anomia com amostras mais diversificas e comparar subculturas. Travis (1993), então, toma como referência a teoria da alienação (especificamente, do isolamento social) e da anomia passando a elaborar um instrumento com sete itens, que deve ser respondido numa escala do tipo likert.

A escala de Travis (1993) tem como objetivo mensurar o quanto o sujeito sente que estar à margem da sociedade em relação à realização de seus objetivos, isto é, o quanto ele se sente socialmente excluído. O sentimento anômico refere-se a um sentimento individual de quebre ou debilidade dos padrões sociais, acompanhado por sensações de insegurança e marginalização, desequilíbrio entre metas e normas, expectativas descontroladas e questionamentos da legitimidade dos valores sociais. No Brasil, Souza, Santos Neto e Souza (2003) desenvolveram um estudo utilizando a escala de Travis (1993) e observaram indicadores de consistência interna aceitáveis com amostra brasileiras. Esses resultados se assemelharam aos encontrados no estudo transcutural de Omar, Aguiar de Souza e Soares Formiga (2005). A avaliação desse construto na ciência psicológica, o qual não tem encontrado, no Brasil, produção suficiente sobre o tema, além das supracitadas, seria uma contribuição significativa para explicação da conduta socialmente desejável.

Apesar dos estudos apresentarem uma garantia da consistência interna da escala em questão, ao considerar a Análise Fatorial Exploratória (AFE), especificamente, a dos principais componentes (PC), existe um inconveniente: esta análise pauta-se estritamente nos dados obtidos e sua aleatoriedade não considerando um modelo teórico fixo que oriente a extração das dimensões latentes e muito menos seu poder de apresentar qualquer indicação sobre a bondade de ajuste do modelo.

As técnicas de modelagem estrutural têm a clara vantagem de levar em conta a teoria para definir os itens pertencentes a cada fator, bem como, apresentar indicadores de bondade de ajuste que permitem decidir objetivamente sobre a validade de construto da medida analisada. Desta forma, dois resultados principais podem ser esperados ao trabalhar com essa análise: 1- estimativa da magnitude dos efeitos estabelecida entre variáveis, as quais estão condicionadas ao fato de o modelo especificado (isto é, o diagrama) estar correto, e 2 - testar se o modelo é consistente com os dados observados, a partir dos indicadores estatísticos, podendo dizer que resultado, modelo e dados são plausíveis, embora não se possa afirmar que este é correto (Farias & Santos, 2000). Atende-se assim, não a certeza total do modelo, mas, a sua probabilidade sistemática na relação entre as variáveis e a perspectiva teórica assumida.

Um dos principais objetivos das técnicas multivariadas – neste caso, considera-se a modelagem de equação estrutural - é expandir a habilidade exploratória do pesquisador e a eficiência estatística e teórica no momento em que se quer provar a hipótese levantada no estudo. Apesar das técnicas estatísticas tradicionais compartilharem de limitações, nas quais, é possível examinar somente uma relação entre as variáveis, é de suma importância para o pesquisador o fato de ter relações simultâneas.

A fim de suprir esta necessidade, a Modelagem de Equação Estrutural examina uma série de relações de dependência simultâneas, esse método é particularmente útil quando uma variável dependente se torna independente em relações subseqüentes de dependência (Silva, 2006; Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005). Com isso, este estudo tem como objetivo: tomando com base as análises e perspectiva teórica abordada pelos autores supracitados quanto a escala de Travis (1993), avaliar de forma mais robusta, a partir de uma Análise Fatorial Confirmatória (AFC) e a análise do Modelo de Equação Estrutural (SEM) efetuado a partir do AMOS GRAFICS, versão 7.0, a escala de sentimento anômico em jovens brasileiros, hipotetizando, uma estrutura unifatorial.


Método

Participantes

Participaram do estudo 235 jovens de 13 a 20 anos, com uma distribuição equitativa de jovens do sexo masculino (49%) e do sexo feminino (51%), da rede de educação pública e particular da cidade de João Pessoa – PB, que voluntariamente aceitaram participar do estudo.

Instrumentos

Os participantes responderam os seguintes questionários:Escala de sentimento de estar à margem da sociedade (MOS - Margins of Society Scale). A MOS foi desenvolvida por Travis (1993) e adaptada por Souza e cols. (2003) para o contexto brasileiro, apresentando alfas confiáveis.

A presente escala é composta por sete itens que procuram avaliar o quanto as pessoas sentem sofrer uma exclusão social (por exemplo, Eu me sinto muito sozinho atualmente; Não importa o quanto a pessoa se esforce na vida, isso não faz diferença; Eu me sinto discriminado socialmente; Sinto como se meu mundo estivesse caindo; Eu queria ser alguém importante; É difícil para mim dizer o que é certo e errado atualmente; Eu não gosto de viver de acordo com as regras da sociedade). Para responder a pessoa deve ler cada item e indicar o quanto elas estão em acordo com cada uma das sete questões e indicar (marcando com um X ou circulo) numa escala do tipo Likert, que variava de 1 = Discordo totalmente, 2 – Discordo em parte, 3 - Não concordo nem discordo, 4 - Concordo em parte e 5 - Concordo totalmente

Caracterização Sócio-Demográfica. Os participantes responderam um conjunto de perguntas sobre característica pessoais (sexo, idade, etc.) com a finalidade de caracterizar os respondentes da pesquisa.

Procedimento e análise dos dados

Todos os procedimentos adotados nesta pesquisa seguiram as orientações previstas na Resolução 196/96 do CNS e na Resolução 016/2000 do Conselho Federal de Psicologia.
Para a aplicação do instrumento, o responsável pela coleta dos dados visitou a coordenação ou diretoria das instituições de ensino, falando diretamente com os diretores e/ou coordenadores para depois tentar a permissão junto aos professores responsáveis de cada disciplina, procurando obter sua autorização para ocupar uma aula e aplicar os questionários. Sendo autorizado, os estudantes foram contatados, expondo sumariamente os objetivos da pesquisa, solicitando sua participação voluntária.

Foi dito aos respondentes que não havia resposta certa ou errada e que mesmo necessitando uma resposta individual, estes não deveriam se ver obrigados em respondê-los podendo desistir a qual momento seja quanto tivesse o instrumento em suas mãos ou ao iniciar sua leitura, ou outro eventual condição. Em qualquer um desses eventos, não haveria problema de sua desistência.

A todos era assegurado o anonimato das suas respostas, enfatizando que elas seriam tratadas em seu conjunto estatisticamente; apesar do questionário ser auto-aplicável, contando com as instruções necessárias para que possam ser respondidos, os colaboradores estiveram presentes durante toda a aplicação para retirar eventuais dúvidas ou realizar esclarecimentos que se fizessem indispensáveis, não interferindo na lógica e compreensão das respostas dos respondentes. Um único aplicador, previamente treinado, esteve presente em sala de aula, apresentando os instrumentos, solucionando eventuais dúvidas e conferindo a qualidade geral das respostas emitidas pelos respondentes.

No que se refere à análise dos dados desta pesquisa, utilizou-se a versão 18.0 do pacote estatístico SPSS para Windows. Foram computadas estatísticas descritivas (tendência central e dispersão). Os seguintes indicadores estatísticos para o Modelo de Equações Estruturais (SEM) foram considerados segundo uma bondade de ajuste subjetiva. Esse programa estatístico tem a função de apresentar, de forma mais robusta, indicadores psicométricos que vise uma melhor construção da adaptação e acurácia da escala desenvolvida, bem como, permita desenhar um modelo teórico pretendido no estudo.

Com o programa AMOS, versão 7.0, pretendeu-se testar a adequação do modelo unidimensional, considerando-se como entrada a matriz de covariâncias, tendo sido adotado o estimador ML (Maximum Likelihood). Este tipo de análise estatística é mais criteriosa e rigorosa do que aquela que a do primeiro estudo no presente estudo. Isto permite testar diretamente uma estrutura teórica, como é o caso da que se propõem no presente estudo. Esta análise apresenta alguns índices que permitem avaliar a qualidade de ajuste do modelo proposto (Byrne, 1989; Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005; Kelloway,1998; Tabachnick & Fidell, 1996; van de Vijver & Leung, 1997), por exemplo:

• O χ² (qui-quadrado) testa a probabilidade de o modelo teórico se ajustar aos dados; quanto maior este valor pior o ajustamento. Este tem sido pouco empregado na literatura, sendo mais comum considerar sua razão em relação aos graus de liberdade (χ²/g.l.). Neste caso, valores até 5 indicam um ajustamento adequado.

Root Mean Square Residual (RMR), que indica o ajustamento do modelo teórico aos dados, na medida em que a diferença entre os dois se aproxima de zero. Para o modelo ser considerado bem ajustado, o valor deve ser menor que 0,05.

O Goodness-of-Fit Index (GFI) e o Adjusted Goodness-of-Fit Index (AGFI) são análogos ao R² em regressão múltipla. Portanto, indicam a proporção de variância–covariância nos dados explicada pelo modelo. Estes variam de 0 a 1, com valores na casa dos 0,80 e 0,90, ou superior, indicando um ajustamento satisfatório.

O Comparative Fit Index (CFI) compara, de forma geral, o modelo estimado e o modelo nulo, considerando valores mais próximos de um como indicadores de ajustamento satisfatório (Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005).

A Root-Mean-Square Error of Approximation (RMSEA), com seu intervalo de confiança de 90% (IC90%), é considerado um indicador de “maldade” de ajuste, isto é, valores altos indicam um modelo não ajustado. Assume-se como ideal que o RMSEA se situe entre 0,05 e 0,08, aceitando-se valores de até 0,10 (Garson, 2003; Kelloway, 1998).

O Expected Cross-Validation Index (ECVI) e o Consistent Akaike Information Criterion (CAIC) são indicadores geralmente empregados para avaliar a adequação de um modelo determinado em relação a outro. Valores baixos do ECVI e CAIC expressam o modelo com melhor ajuste (Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005; Bilich, Silva & Ramos, 2006).


Resultados e discussão

A fim de atender o primeiro objetivo do estudo, tomou-se como base no presente estudo, a análise exploratória realizado por Souza e cols. (2003) com uma amostra brasileira e de Omar, Aguiar de Souza e Soares Formiga (2005) com amostras do Brasil e da Argentina, com a escala de sentimento de estar à margem da sociedade (MOS - Margins of Society Scale), a qual foi desenvolvida por Travis (1993). Nos dois estudos, esta escala revelou indicadores de consistência interna aceitáveis. Porém, considerando os limites que a análise exploratória possa apresentar para avaliação estrutural de um escala, já destacada na introdução do presente estudo, procurou-se testar a estrutura fatorial da escala, a partir da modelagem de equação estrutural. Com uma amostra de jovens brasileiros, tratou-se de avaliar um Modelo unifatorial, em que todos os itens apresentassem saturações em um único fator.


Optou-se por deixar livre a covariância (phi, φ) entre os fatores. Os indicadores de qualidade de ajuste do modelo se mostraram próximos aos recomendados apresentados na literatura (Byrne, 1989; Tabachnick & Fidell, 1996; van de Vijver & Leung, 1997), os quais podem ser observados a seguir: c2/gl (7,11/11) = 0,64; RMR = 0,04; GFI = 0,99; AGFI = 0,98; CFI = 1,00; RMSEA = 0,00 (0,00-0,04). O valor do ECVI e CAIC não foram necessários por não haver modelo para ser comparado. A seguir, na Figura 1 é apresentada a estrutura fatorial resultante (solução padronizada) dessa análise.

Como é possível observar na figura 1, todas as saturações (Lambdas, λ) estão dentro do intervalo esperado |0 - 1|, denotando não haver problemas de estimação proposta. Além disso, todas são estatisticamente diferentes de zero (t > 1,96, p < 0,05), corroborando, com isso, a existência unifatorial da escala testada.


Figura 1: Modelagem estrutural da escala de sentimento de estar à margem da sociedade (Travis, 1993) em jovens.

No presente estudo, procurou-se verificar a estrutura fatorial da escala de sentimento de estar à margem da sociedade (MOS - Margins of Society Scale). Neste sentido, assume-se o modelo unifatorial como o mais adequado, para representar o sentimento anômico dos sujeitos da amostra avaliada. Este construto trata-se de um sentimento considerado individual em relação quebra ou debilidade dos padrões sociais, acompanhado por sensações de insegurança e marginalização, desequilíbrio entre metas e normas, expectativas descontroladas e questionamentos da legitimidade dos valores sociais medulares.

Os diversos critérios empregados para definição do número do fator a ser extraído, por exemplo, χ2/gl, GFI, AGFI, RMR, CFI e RMSEA, reforçam a solução unifatorial esperada teoricamente. Estes indicadores foram satisfatórios estando em intervalos que têm sido considerados como aceitáveis na literatura vigente (Byrne,1989; Garson, 2003; Kelloway, 1998). Ao considerar essa escala aponta-se não somente para uma análise funcional da experiência subjetiva de se sentir excluído da sociedade, mas, também, da estrutura dessa experiência no espaço psicológico do sujeito influenciando a conduta socialmente desejável.

Considerando a evidência de validade da estrutura fatorial da escala estudada, justifica-se seu emprego no contexto brasileiro para pesquisas acerca de variáveis antecedentes e conseqüentes da dinâmica psicossocial na sociedade brasileira. De forma geral, esse sentimento anômico aponta em direção de uma conduta de subversão, a qual é responsável pela desintegração e ruptura das relações sociais, mas, também, pela não submissão as relações sociais de ordem interior e social.

O desejo de estar e permanecer unidos é o que impede a dissolução da estrutura social e psicológica, capaz de regular a reciprocidade, o reconhecimento e aceitação das diferenças das funções sociais de cada sujeito estabelecida hierarquicamente e uma aproximação maior com a solidariedade social; caso contrário o desvio social surgirá.

Em relação a validade da estrutura fatorial da escala MOS, é importante destacar que a escala proposta por Travis (1993) se aproxima da perspectiva psicológica da escala de anomia salientada por McClosky e Schaar (1965) e de Srole (1956) as quais foram validadas por Rodriguez (2006) com uma amostra em Costa Rica. Especificamente, a escala de por McClosky e Schaar (1965) apresentou indicadores de ajuste aceitáveis pela literatura vigente (por exemplo, 2 = 33,74; gl = 25; p= 0,11, RMR = 0,45, RMSEA = 0,04, CFI = 0,96, GFI = 0,96 e AGFI = 0,93).

Considerando o construto psicológico para se avaliar a anomia, a escala de Travis (1993) revelou, neste estudo, melhores indicadores do que os encontrados por Rodriguez (2006). Vale destacar que, apesar da diferença qualitativa entre esses indicadores, isso não pode ser considerado uma condição de eliminação e inviabilidade da escala avaliada por Rodriguez (2006), mas, deve-se destacar que a escala de Travis (1993) trata-se de mais uma peça no quebra-cabeça do estudo da anomia psicológica. Porém, exige-se que futuros estudos sejam realizados com essa escala a fim de avaliar a acurácia do construto.

De acordo com Garcia (2006), próximo ao que considera Durkheim e Merton, acredita-se que devido à evolução da sociedade industrial os indivíduos encontram-se desorientados e inadaptados, pois o sucesso econômico é provocador da falta de controle sobre os desejos do homem por uma sociedade e normas socialmente aceitas, causando prejuízo no grau de controle e força dos vínculos sociedade-indivíduo para o controle do comportamento; mas, ao enfatizar os resultados encontrados neste estudo, se vai mais além, o processo evolutivo da sociedade e sua força capitalista é influenciadora, também, de experiências psicológicas subjetivas de sentimento de inferioridade.

O problema anomia parece não ser excluso das carências sociais e econômicas, mas, ao considera os resultados observados neste estudo, deve-se a percepção do sujeito quanto um ser que não sente como parte da sociedade, um ser que não valorado e incluído nos planos do avanço e sucesso da sociedade vigente, tornado o sujeito incapaz de internalizar, com isso, um sentimento de cidadania e co-partícipe. A falta de internalização de um sentimento de ordem reflete um limite na racionalidade da identificação dos laços sociais responsáveis pela sustentabilidade da harmonia social e resolução de conflitos, os quais, provavelmente, serão causadores da conduta desviante.

Conclusão

Considerando os indicadores de bondade de ajuste, houve evidência da validade estrutural da escala avaliada justificando seu emprego com pesquisas acerca de variáveis antecedentes e conseqüentes do sentimento anômico. A garantia psicométrica através da equação de modelagem estrutural, além tornar este instrumento acurado em sua mensuração temporal, o fez também, considerando a perspectiva geo-política em diferentes períodos em que a escala foi aplicada pelos autores supracitados em outros contextos sociais.

Espera-se que os objetivos deste estudo tenham sido cumpridos, principalmente, no que diz respeito à sua estrutura da escala analisada, podendo empregá-lo em áreas de estudo que cooperam com a psicologia, por exemplo: educação, sociologia, assistência social, etc. Contudo, é bom destacar quando for considerar os resultados deste estudo em outros contextos sociais é necessário ter em conta os aspectos mais específicos ou universais de cada cultura na avaliação dessas escalas quando se pretender adaptá-las.

Por um lado, é importante considerar as dimensões locais, específicas ou exclusivas (emics) da orientação de cada cultura, bem como, e não menos importante, avaliar as dimensões universais (etics) da Cultura, com o objetivo de comparar os construtos estudados aqui para outro espaço geo-político e social (Muenjohn & Armstrong, 2007; Triandis e cols., 1993; Triandis, 1994; Van De Vijver & Leung, 1997).

Esse fato aponta para a seguinte direção: conhecer os aspectos que podem ser comuns a todas as culturas e aqueles que são específicos, contribuindo para consolidar um marco teórico da teoria da anomia psicológica, já que é possível encontrar variações desse construto ao considerar os contextos políticos e culturais. Por fim, quanto ao que fazer no futuro em relação a essa escala? Pretende-se reunir evidências adicionais de sua validade e precisão intra, inter e pan-culturais, por exemplo: avaliar sua validade de critério ou convergente em relação a construtos correlatos, bem como, conhecer sua estabilidade temporal (teste-reteste), comparando com os resultados que podem ser indicados por outros autores; assim, a replicabilidade do presente estudo, deveria ser prioridade, considerando-se amostras maiores e mais diversificadas quanto às características dos participantes, incluindo também jovens de diferentes contextos socioculturais e econômicos.


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Notas

1. Durante o desenvolvimento deste estudo o autor contou com a bolsa de produtividade do CNPq, instituição a qual agradece.

AnexosAssinale a alternativa que melhor reflete a freqüência com que você experimenta tais sentimentos de acordo com a seguinte escala:




Consulta anticorrupción

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